domingo, 24 de maio de 2009

Porque não consigo crer

Porque não consigo crer


Autor: Norberto Bobbio



Eu não sou um homem de fé, sou um Homem de razão e duvido de toda fé, porém distingo a religião da religiosidade. Religiosidade significa para mim, simplesmente, ter o senso dos próprios limites, saber que a razão do homem é um pequeno ponto de luz, que ilumina um espaço ínfimo comparado à grandiosidade, à imensidão do universo. A única coisa da qual estou certo, sempre ficando nos limites da minha razão - porque nunca repetirei o bastante: não sou um homem de fé, ter fé é algo que pertence a um mundo que não o meu - é, contudo, que eu vivo o senso do mistério, que é evidentemente comum tanto ao homem de razão quanto ao homem de fé. Com a diferença que o homem de fé resolve esse mistério com revelações e verdades que vêem do alto, e das quais não consigo me convencer. Continua entretanto fundamental esse profundo senso do mistério, que nos circunda, e que é o que chamo senso de religiosidade.

Minha religiosidade é da dúvida, mais que das respostas certas. Eu aceito apenas o que está nos limites da estrita razão, e são limites realmente apertados: minha razão pára depois de poucos passos enquanto, querendo percorrer a estrada que penetra no mistério, a estrada não tem fim. Mais nós sabemos, mais sabemos nada saber. Qualquer cientista dirá que quanto mais sabe mais descobre não saber. Pensávamos saber mais que os antigos, que nada sabiam em confronto com o que sabíamos. Alargamos enormemente o espaço do nosso conhecimento, contudo, mais o alargamos, mais nos damos conta de que esse espaço é grande. O que é o cosmo? O que sabemos do cosmo? Como e por quê se dá a passagem do nada ao ser? È uma pergunta tradicional, mas eu não tenho a resposta: por que o ser e não em vez dele o nada? Eu nunca escondi não ter uma resposta, e não sei quem a saiba dar a essa última pergunta a não ser pela fé. Segundo Severino o ser é infinito, o ser é. Mas nem assim somos capazes de saber o que era antes. É impossível. E frente às perguntas as quais é impossível dar uma resposta - porque disso estou certo: não posso dar uma reposta, se bem que pertença a uma humanidade que realizou progressos enormes - me sinto um pequeno grãozinho de areia neste universo. E negar que a pergunta tenha sentido, como poderia fazer certa filosofia analítica, me parece um jogo de palavras.

Provavelmente depende da minha incapacidade de passar ao largo quando sinto estar chegando ao fim da vida sem ter encontrado uma resposta às questões últimas, minha inteligência é humilhada. Humilhada. E eu aceito essa humilhação. A aceito. E não procuro escapar dessa humilhação com a fé, através de estradas que não consigo percorrer. Continuo um homem da minha razão limitada - e humilhada. Sei que não sei. A isso chamo de “a minha religiosidade”. Não sei se está certo, mas no fundo coincide com aquilo que pensam as pessoas religiosas frente ao mistério. Certo, provavelmente não se consegue resistir a esse duvidar contínuo, a esse contínuo não saber, e então se entrega às crenças, como aquela na imortalidade da alma. Eu, porém, o fundo religioso da minha pessoa, continuo a entendê-lo como esse não saber. E é um fundo religioso que me perturba, me agita, me atormenta. Um dia, disse ao cardeal Martini: para mim, a diferença não está entre o crente e o não crente (o que quer dizer crer? Em que?), mas entre quem leva a sério esses problemas e quem não os leva a sério: há o crente que se contenta com respostas fáceis (e também o não crente, claro, que se contenta com as respostas fáceis!). Qualquer um diz: “sou ateu”, mas eu não estou certo de saber o que significa. Penso que a verdadeira diferença seja entre quem, para dar um sentido à própria vida, se faz com seriedade e empenho essas perguntas e procura a resposta, ainda que não a encontre, e aquele a quem não importa nada, a quem basta repetir o que lhe foi dito desde menino. A resposta da fé é consolativa. Mas as religiões não têm só uma função consolativa. Possuem também a função de “revelar” a verdade sobre problemas a que não chega o saber comum: a criação, a imortalidade da alma. Respostas consoladoras, mas não só: respostas a perguntas que alguém se faz no limiar da morte. Eu dei a minha resposta com as poucas “convicções” que tenho. Porque as minhas são “convicções” de um homem que constantemente passa da dúvida à verdade e de novo à dúvida. Eu não creio. Chegado a uma idade em que se sente que o fim está próximo, se devo ouvir a mim mesmo, e dar uma resposta pessoal, o único desejo que tenho, a única vontade, não é certamente aquela da imortalidade, é a de morrer na santa paz: o repouso eterno é o que espero. Não quero renascer. Mas mesmo isso, no fundo, coincide profundamente com a religião: “Requiem aeternam dona eis, Domine!”, está escrito na frente de todo cemitério.

Eu também cresci, como quase todos neste país, em uma família católica, e tive uma formação católica. Preces, preces, preces... Eu as repeti tanto (seja em latim, como se usava uma vez, seja em italiano) que quase as esqueci. Fiz a primeira comunhão, e também um casamento religioso (ainda que minha esposa também não seja crente). E à pergunta sobre quando e porque perdi a fé, não é fácil responder. Talvez pelos vinte anos. Certamente, o estudo da filosofia, também. Todas essas perguntas sobre problemas de metafísica, digamos assim, e o dar-se conta de que as respostas da fé implicavam crenças difíceis de aceitar. A crença nos milagres, por exemplo, para um racionalista é a coisa mais absurda. Entretanto é dever crer naquilo que a todo ser de razão parece mito, começando pelo pecado original. Sobre o pecado original partilho daquilo que em vários artigos escreveu um amigo católico, o professor Luigi Lombardi Vallauri (que também por essa razão foi demitido da Universidade católica onde ensinava), que faz perguntas muito simples, terra-terra se quiser, mas às quais não há resposta: uma culpa originária coletiva não é aceitável, a culpa é pessoal, não pode ser transmitida de uma geração a outra, não há nada de mais primitivo. A culpa coletiva è realmente uma concepção tribal. Crer no Antigo Testamento é difícil. Crer no Deus de Abraão que se revela pedindo um sacrifício tão cruel. E paro por aqui. Mas resta o mistério do universo. De resto, talvez tenham contado muito na minha formação fatores mais banais. Com e depois da adolescência, se entra no mundo, com todos os desejos que assaltam um rapaz, fortes o bastante para deixar de lado pouco a pouco as praticas religiosas. Por tantos anos me confessei e a certo ponto não me confessei mais. Entrei em conflito com a moral do confessionário. Talvez com a idéia de que depois se voltará...

Entre os problemas metafísicos me veio logo o da imortalidade da alma: é possível que sejamos eternos? O que significa? A vida e a morte são indissoluvelmente conexas, a vida recebe um sentido da morte e a morte da vida. A morte, se fosse de fato uma outra vida, não seria a morte. Pensemos bem: por que a morte é a morte? Porque é a morte! É preciso levar a morte a sério. Comecei a levar a morte a sério vendo morrer jovens amigos, sem me iludir com as promessas da religião de que ainda estivessem vivos. Alguma vez, pensando na morte de uma pessoa particularmente cara - meu pai, por exemplo - sei que aquela pessoa que amei não existe mais. E que se existir alguma coisa dele em outro lugar – que não sei onde seria - a mim não importa absolutamente nada. A pessoa que amei era aquele particular modo de sorrir, de brincar conosco, de juntar-se a nós no campo no fim de semana quando estávamos em férias, nossa expectativa sobre o portão da casa para esperar por ele e depois saudá-lo festivamente: isso sei por certo que não existe mais. Continuei a refletir sobre os grandes temas da existência e nenhuma das respostas da religião nunca me convenceu. Porém, ao mesmo tempo, eu nem consegui dar alguma resposta. E portanto, de novo, digo que tenho um senso religioso da vida próprio para essa consciência de um mistério que é impenetrável. Impenetrável!



Norberto Bobbio (1909-2004) foi um filósofo político, jurista e senador vitalício italiano. Este artigo foi escrito quando tinha cerca de 91 anos, sendo publicado no La Repubblica de 30 de Abril de 2000.

2 comentários:

Luci disse...

Nossa que emocionante!

São textos assim que conseguimos escrever com facilidade depois de muita experiência de vida.
Sem pretensões e temores.
Espero que tenha deixado muitos discípulos de seu conhecimento.
Também me sinto um pequeno grãozinho de areia neste universo quando olho pro céu estrelado todas as noites.

Obrigada sábio amigo, que tenhas sido muito feliz.

luciana_gemini disse...

Como posso enviar dicas de documentarios e outros autores que falam dos assuntos abordados no seu blog. Acredito que sera uma boa contribuicao para seu blog.

Ate mais,

Luciana