domingo, 31 de maio de 2009

Vote no Hugo

Vote no Hugo


Autor: Tim Gorski



Hoje de manhã alguém bateu na minha porta. Era um casal bem vestido e arrumado. O homem falou primeiro, e disse:

João: Olá! Eu sou João, e esta é Maria.

Maria: Olá! Gostaríamos de convidá-lo para vir votar no Hugo com a gente.

Eu: Como assim? O que é isso? Quem é Hugo, e por que vocês querem que eu vote nele? Nem é dia de eleição hoje.

João: Se você votar no Hugo, ele lhe dará um milhão de dólares, e se não, ele te cobre de pancada.

Eu: Mas o que é isso? Extorsão da máfia?

João: Hugo é um multibilionário filantropo. Hugo construiu esta cidade. A cidade é dele. Ele pode fazer o que ele quiser, e ele quer te dar um milhão de dólares, mas isso só é possível se você votar nele.

Eu: Mas isso não faz o menor sentido. Se o Hugo construiu a cidade, é dono dela e pode fazer o que quiser, então por que ele precisa ser eleito? E por que ele...

Maria: Quem é você para questionar o presente do Hugo? Você não quer o milhão de dólares? Não vale a pena por votar nele uma vez só?

Eu: Bom, talvez, se for pra valer, mas...

João: Então venha com a gente votar no Hugo.

Eu: Vocês já votaram no Hugo?

Maria: Ah, claro, e...

Eu: E vocês já receberam o milhão de dólares?

João: Bom, na verdade não. Você só recebe o dinheiro depois de sair da cidade.

Eu: Então por que vocês não saem?

Maria: Você só sai quando o Hugo deixar, ou você não leva o dinheiro, e ele te cobre de pancada.

Eu: Vocês conhecem alguém que votou no Hugo, saiu da cidade e ganhou o dinheiro?

João: Minha mãe votou no Hugo por anos. Ela saiu da cidade ano passado, e tenho certeza de que ela ganhou o dinheiro.

Eu: Você não falou com ela depois disso?

João: Claro que não, o Hugo não deixa.

Eu: Então por que você acha que ele vai te dar o dinheiro se você nunca falou com alguém que conseguiu o dinheiro?

Maria: Bom, ele te dá um pouquinho antes de você ir embora. Pode ser um aumento de salário, pode ser um pequeno prêmio de loteria, pode ser que você acha uma nota de cinqüenta na rua.

Eu: E o que isso tem a ver com o Hugo?

João: O Hugo tem uns “contatos”.

Eu: Sinto muito, mas pra mim isso parece um golpe maluco.

João: Mas é um milhão de dólares, você vai arriscar? E lembre, se você não votar no Hugo, ele te cobre de pancada.

Eu: Talvez se eu pudesse ver o Hugo, falar com ele, pegar os detalhes diretamente com ele...

Maria: Ninguém vê o Hugo, ninguém fala com o Hugo.

Eu: Então como vocês votam nele?

João: Às vezes nós fechamos os olhos e votamos, pensando no Hugo. Às vezes votamos no Carlos, e ele conta pro Hugo.

Eu: Quem é Carlos?

Maria: Um amigo nosso. Foi ele que nos ensinou a votar no Hugo. A gente só precisou levá-lo pra jantar algumas vezes.

Eu: E você simplesmente acreditou no que ele disse, quando ele contou que existia um Hugo, e que o Hugo queria que vocês votassem nele, e que o Hugo daria uma recompensa?

João: Claro que não! Carlos trouxe uma carta que o Hugo lhe mandou anos atrás, explicando tudo. Tem uma cópia aqui, veja você mesmo.

João me entregou uma fotocópia de uma carta com o cabeçalho “Do punho de Carlos”. Havia onze itens ali:
1. Vote no Hugo e ele lhe dará um milhão de dólares quando você sair da cidade.
2. Use álcool com moderação.
3. Cubra de pancadas quem não for como você.
4. Coma bem.
5. O próprio Hugo ditou esta lista.
6. A lua é feita de queijo verde.
7. Tudo que o Hugo diz está certo.
8. Lave as mãos depois de ir ao banheiro.
9. Não beba.
10. Só coma salsicha no pão, e sem condimentos.
11. Vote no Hugo, ou ele te cobre de pancada.

Eu: Parece que isso foi escrito no bloco do Carlos. Tenho um palpite que se fôssemos conferir, descobriríamos que essa letra é do Carlos.

João: Claro que é. O Hugo ditou.

Eu: Pensei que vocês tinham dito que ninguém vê o Hugo.

Maria: Não agora, mas tempos atrás ele falava com algumas pessoas.

Eu: Pensei que vocês tinham dito que ele era um filantropo. Como é que um filantropo bate nas pessoas só porque elas são diferentes?

Maria: É o desejo de Hugo, e o Hugo está sempre certo.

Eu: Como você sabe?

Maria: O item 7 fala: “Tudo que o Hugo diz está certo”. Pra mim isso é suficiente.

Eu: Talvez o seu amigo Carlos tenha inventado isso tudo.

João: De jeito nenhum! O item 5 fala: “O próprio Hugo ditou esta lista.” Além disso, o item 2 fala: “Use álcool em moderação”; o item 4 diz: “Coma bem”; e o item 8 diz: “Lave as mãos depois de ir ao banheiro.” Todo mundo sabe que isso é certo, então o resto deve ser verdade também.

Eu: Mas o item 9 diz: “Não beba”; o que não bate com o item 2. E o item 6 diz que “A Lua é feita de queijo verde”, o que está simplesmente errado.

João: Não há contradição entre 9 e 2, 9 só esclarece 2. E quanto ao 6, você nunca esteve na Lua, então não pode ter certeza.

Eu: A ciência já estabeleceu muito bem que a Lua é feita de rochas...
Maria: Mas eles não sabem se as rochas vieram da Terra ou do espaço, então poderia muito bem ser queijo verde.

Eu: Não sou um perito, mas acho que a idéia é que dois ou mais corpos de bastante massa podem ter colidido durante a formação do sistema solar para criar o sistema Terra-Lua. Mas não saber exatamente como a Lua foi formada não tem nada a ver com ela ser feita de queijo.

João: A-há! Você acabou de admitir que os cientistas não podem ter certeza, mas nós sabemos que o Hugo está sempre certo!

Eu: Sabemos?

Maria: Claro, o item 5 diz isso.

Eu: Você está dizendo que o Hugo está sempre certo porque a lista diz, e a lista está certa porque o Hugo ditou, e sabemos que o Hugo ditou porque a lista diz. Isso é lógica circular, é a mesma coisa que dizer que “o Hugo está certo porque ele diz que está certo”.

João: AGORA você está entendendo! É tão bom ver alguém entender o jeito de pensar do Hugo!

Eu: Mas... ah, deixa pra lá. E que história é essa com as salsichas?

João (enquanto Maria enrubesce): É um esclarecimento do item 4. Salsicha, só no pão, sem condimentos. É a maneira do Hugo. Qualquer coisa diferente disso é errado.

Eu: Mas então pode comer hambúrguer sem pão? E bratwurst?

João: Peraí, peraí. Não vamos deixar as coisas mais complicadas do que elas são. É melhor deixar esses detalhes para os peritos profissionais no Hugo e suas regras.

Eu: E se não tiver pão?

João: Sem pão, nada de salsicha. Salsicha sem pão é errado.

Eu: Sem molho? Sem mostarda?

João (Gritando, enquanto Maria parece chocada): Não precisa falar assim! Condimentos de todos os tipos são errados!

Eu: Então uma pilha enorme de repolho azedo com umas salsichas picadas em cima, nem pensar?

Maria (enfiando os dedos nas orelhas): Eu não estou escutando!! La la la, la la, la la la.

João: Mas que nojento! Só um pervertido comeria isso...

Eu: Mas é bom! Eu como sempre!

João (amparando Maria, que desmaia): Se eu soubesse que você era um desses, não teria desperdiçado meu tempo. Quando o Hugo cobrir você de pancada, eu vou estar lá, contando meu dinheiro e rindo. Eu vou votar nele por você, seu comedor-de-salsicha-cortada-com-repolho!

E assim João arrastou Maria pra o carro, e foram embora.

Saramago fala sobre religião

terça-feira, 26 de maio de 2009

As Origens Babilônicas de Adão e Eva

As Origens Babilônicas de Adão e Eva





Grande parte da Bíblia, principalmente o Gênesis, se baseia em uma mistura de mitos babilônicos. Em lugar de começar do zero, os hebreus os adotaram como se fossem um fato da vida, mas, em repúdio ao politeísmo dos mitos originais, eles os reinterpretaram e, em muitos casos, inverteram o contexto e o significado das narrativas.

No mito sumeriano original, por exemplo, os deuses maiores (Anunnaki) escravizaram os deuses menores (Igigi) e os forçaram a trabalhar a terra para produzir comida para eles. Um deles (We-ila) se revoltou e foi morto. Sua energia vital foi aplicada ao barro e dele foi criado o homem, que passou a cultivar a terra no lugar dos Igigi, e estes tiveram então direito à ociosidade junto aos Anunnaki.

Desta forma, os sumerianos explicavam a rebeldia, a desonestidade e a luxúria do homem: eram características herdadas dos deuses, que o haviam criado, e não culpa dele, criado à imagem divina.

Os hebreus adotaram este mito, mas inverteram as coisas: Deus era um ser perfeito e criou o homem perfeito, mas este, por iniciativa própria, se rebelou, mentiu, pecou. A culpa seria então do homem, não de Deus.

Para os sumerianos, o homem era vítima dos deuses e não perdeu a inocência porque nunca a teve. Para os hebreus, o homem, criado inocente, torna-se o vilão e a vítima é Deus.

Para os sumerianos, os deuses viviam em cidades como Uruk, cercada de terras cultivadas que produziam os alimentos. As terras selvagens que ficavam além eram denominadas eden ou edin e eram habitadas por animais selvagens, sem língua e sem cultura. Para a cultura sumeriana, a vida nas cidades era o ideal, não a selvageria do eden. Em outras versões, eden/edin era o local onde a humanidade trabalhava sem parar para alimentar os deuses. Para os antigos, o atual desejo dos cristãos e mussulmanos de voltar para o Eden pareceria loucura.

O épico de Gilgamesh mostra uma das visões do eden/edin: Enkidu, criado por uma deusa, vivia como um animal, comendo capim e bebendo água do rio junto com os animais. Um caçador queixou-se aos deuses que Enkidu destruía suas armadilhas e então Shamhat, uma prostituta do templo, foi enviada para seduzí-lo. Enkidu nunca tinha visto uma mulher e se apaixonou por ela, esquecendo-se dos animais. No caminho para Uruk, Shamhat lhe deu pão e vinho (ou cerveja) para beber. Acostumado a comer capim e beber água, ele a princípio recusou, mas acabou convencido. Depois de comer, tornou-se humano e então aceitou as roupas que Shamhat lhe deu. Enkidu foi viver em Uruk e, com o tempo, tornou-se como um irmão para Gilgamesh.

Ao inverter este mito, os judeus transformaram o eden num lugar ideal, onde o homem foi posto por Deus para cuidar de seus jardins, vivendo em paz com os animais. Após o pecado, ou seja, após comer da fruta proibida, percebeu que estava nu, foi expulso e teve que cultivar a terra.

Numa outra versão, Anu, o deus principal, proíbe que os Anunnak, deuses secundários, ensinem segredos aos homens, que devem ser mantidos ignorantes e trabalhando na lavoura. Os Anunnak, entretanto, concluem que os homens serão mais úteis se aprenderem os segredos do pão, do vinho, da cerveja e das roupas. Com este conhecimento, os homens passam a produzí-los para si e para os deuses. Inicialmente, os homens não consomem o pão e as bebidas, pois Ea, o deus que criou o homem, lhes disse que morreriam se o fizessem, mas outro deus - Enki, apelidado “ushumgal” (“A Grande Serpente”, embora ele tivesse forma de homem) - lhes explica que não haveria problema. O curioso é que Enki parece ser uma outra versão de Ea, o que significa que Javé e o Diabo/Serpente são, na verdade, Ea/Enki, mas os hebreus recusaram a idéia de terem sido enganados por seu próprio deus e transformaram Ea/Enki num simples animal.

Há também uma versão em que o homem vivia no reino celestial e o deus principal, Anu, lhe oferece o alimento que lhe daria vida eterna, mas ele o recusa porque Ea/Enki lhe dissera que o alimento o mataria. O homem é então expulso do reino. Mais uma inversão, portanto, já que aqui é Deus que quer lhe dar vida eterna e é a serpente que o engana.

A Árvore do Conhecimento hebraica tem origem no pinheiro, cuja pinha a deusa Inanna (a “Senhora do Éden”) comeu para adquirir conhecimento e a Árvore da Vida se origina do “pão da vida” que Anu oferece ao homem.

Na mitologia assíria, dois querubins, um de cada lado, guardavam a árvore da vida. Quando Adão e Eva foram expulsos, Javé mandou que querubins guardassem o caminho para a Árvore da Vida.

Os deuses babilônicos eram mortais e precisavam comer 2 vezes ao dia e, para isto, exigiam sacrifícios de alimentos nos templos. Javé também exige sacrifícios 2 vezes por dia no monte Sinai e, mais tarde, no templo de Jerusalém, o que é estranho, já que não é mortal nem material e não precisa de alimentos.

A criação de Eva a partir de uma costela de Adão deve ter vindo do mito sobre a deusa Nin-Ti, criada para curar a costela de Enki.

Se o texto acima parece confuso, é porque ele realmente é. Os mitos babilônicos tinham muitas versões, onde os deuses trocavam de nomes e de papéis, se fundiam em um só deus ou se dividiam em dois, onde cada “fato” era narrado de formas diferentes em contextos diferentes. E foi desta confusão que nasceu a Bíblia...


Para saber mais:

Bible Origens
http://www.bibleorigins.net/

Na Terra dos Zigurates
http://www.pauloliveira.com/MySiteOLD/Zigurate/Zigurates.htm

Genesis of Eden
http://www.dhushara.com/book/orsin/origsin.htm

domingo, 24 de maio de 2009

Porque não consigo crer

Porque não consigo crer


Autor: Norberto Bobbio



Eu não sou um homem de fé, sou um Homem de razão e duvido de toda fé, porém distingo a religião da religiosidade. Religiosidade significa para mim, simplesmente, ter o senso dos próprios limites, saber que a razão do homem é um pequeno ponto de luz, que ilumina um espaço ínfimo comparado à grandiosidade, à imensidão do universo. A única coisa da qual estou certo, sempre ficando nos limites da minha razão - porque nunca repetirei o bastante: não sou um homem de fé, ter fé é algo que pertence a um mundo que não o meu - é, contudo, que eu vivo o senso do mistério, que é evidentemente comum tanto ao homem de razão quanto ao homem de fé. Com a diferença que o homem de fé resolve esse mistério com revelações e verdades que vêem do alto, e das quais não consigo me convencer. Continua entretanto fundamental esse profundo senso do mistério, que nos circunda, e que é o que chamo senso de religiosidade.

Minha religiosidade é da dúvida, mais que das respostas certas. Eu aceito apenas o que está nos limites da estrita razão, e são limites realmente apertados: minha razão pára depois de poucos passos enquanto, querendo percorrer a estrada que penetra no mistério, a estrada não tem fim. Mais nós sabemos, mais sabemos nada saber. Qualquer cientista dirá que quanto mais sabe mais descobre não saber. Pensávamos saber mais que os antigos, que nada sabiam em confronto com o que sabíamos. Alargamos enormemente o espaço do nosso conhecimento, contudo, mais o alargamos, mais nos damos conta de que esse espaço é grande. O que é o cosmo? O que sabemos do cosmo? Como e por quê se dá a passagem do nada ao ser? È uma pergunta tradicional, mas eu não tenho a resposta: por que o ser e não em vez dele o nada? Eu nunca escondi não ter uma resposta, e não sei quem a saiba dar a essa última pergunta a não ser pela fé. Segundo Severino o ser é infinito, o ser é. Mas nem assim somos capazes de saber o que era antes. É impossível. E frente às perguntas as quais é impossível dar uma resposta - porque disso estou certo: não posso dar uma reposta, se bem que pertença a uma humanidade que realizou progressos enormes - me sinto um pequeno grãozinho de areia neste universo. E negar que a pergunta tenha sentido, como poderia fazer certa filosofia analítica, me parece um jogo de palavras.

Provavelmente depende da minha incapacidade de passar ao largo quando sinto estar chegando ao fim da vida sem ter encontrado uma resposta às questões últimas, minha inteligência é humilhada. Humilhada. E eu aceito essa humilhação. A aceito. E não procuro escapar dessa humilhação com a fé, através de estradas que não consigo percorrer. Continuo um homem da minha razão limitada - e humilhada. Sei que não sei. A isso chamo de “a minha religiosidade”. Não sei se está certo, mas no fundo coincide com aquilo que pensam as pessoas religiosas frente ao mistério. Certo, provavelmente não se consegue resistir a esse duvidar contínuo, a esse contínuo não saber, e então se entrega às crenças, como aquela na imortalidade da alma. Eu, porém, o fundo religioso da minha pessoa, continuo a entendê-lo como esse não saber. E é um fundo religioso que me perturba, me agita, me atormenta. Um dia, disse ao cardeal Martini: para mim, a diferença não está entre o crente e o não crente (o que quer dizer crer? Em que?), mas entre quem leva a sério esses problemas e quem não os leva a sério: há o crente que se contenta com respostas fáceis (e também o não crente, claro, que se contenta com as respostas fáceis!). Qualquer um diz: “sou ateu”, mas eu não estou certo de saber o que significa. Penso que a verdadeira diferença seja entre quem, para dar um sentido à própria vida, se faz com seriedade e empenho essas perguntas e procura a resposta, ainda que não a encontre, e aquele a quem não importa nada, a quem basta repetir o que lhe foi dito desde menino. A resposta da fé é consolativa. Mas as religiões não têm só uma função consolativa. Possuem também a função de “revelar” a verdade sobre problemas a que não chega o saber comum: a criação, a imortalidade da alma. Respostas consoladoras, mas não só: respostas a perguntas que alguém se faz no limiar da morte. Eu dei a minha resposta com as poucas “convicções” que tenho. Porque as minhas são “convicções” de um homem que constantemente passa da dúvida à verdade e de novo à dúvida. Eu não creio. Chegado a uma idade em que se sente que o fim está próximo, se devo ouvir a mim mesmo, e dar uma resposta pessoal, o único desejo que tenho, a única vontade, não é certamente aquela da imortalidade, é a de morrer na santa paz: o repouso eterno é o que espero. Não quero renascer. Mas mesmo isso, no fundo, coincide profundamente com a religião: “Requiem aeternam dona eis, Domine!”, está escrito na frente de todo cemitério.

Eu também cresci, como quase todos neste país, em uma família católica, e tive uma formação católica. Preces, preces, preces... Eu as repeti tanto (seja em latim, como se usava uma vez, seja em italiano) que quase as esqueci. Fiz a primeira comunhão, e também um casamento religioso (ainda que minha esposa também não seja crente). E à pergunta sobre quando e porque perdi a fé, não é fácil responder. Talvez pelos vinte anos. Certamente, o estudo da filosofia, também. Todas essas perguntas sobre problemas de metafísica, digamos assim, e o dar-se conta de que as respostas da fé implicavam crenças difíceis de aceitar. A crença nos milagres, por exemplo, para um racionalista é a coisa mais absurda. Entretanto é dever crer naquilo que a todo ser de razão parece mito, começando pelo pecado original. Sobre o pecado original partilho daquilo que em vários artigos escreveu um amigo católico, o professor Luigi Lombardi Vallauri (que também por essa razão foi demitido da Universidade católica onde ensinava), que faz perguntas muito simples, terra-terra se quiser, mas às quais não há resposta: uma culpa originária coletiva não é aceitável, a culpa é pessoal, não pode ser transmitida de uma geração a outra, não há nada de mais primitivo. A culpa coletiva è realmente uma concepção tribal. Crer no Antigo Testamento é difícil. Crer no Deus de Abraão que se revela pedindo um sacrifício tão cruel. E paro por aqui. Mas resta o mistério do universo. De resto, talvez tenham contado muito na minha formação fatores mais banais. Com e depois da adolescência, se entra no mundo, com todos os desejos que assaltam um rapaz, fortes o bastante para deixar de lado pouco a pouco as praticas religiosas. Por tantos anos me confessei e a certo ponto não me confessei mais. Entrei em conflito com a moral do confessionário. Talvez com a idéia de que depois se voltará...

Entre os problemas metafísicos me veio logo o da imortalidade da alma: é possível que sejamos eternos? O que significa? A vida e a morte são indissoluvelmente conexas, a vida recebe um sentido da morte e a morte da vida. A morte, se fosse de fato uma outra vida, não seria a morte. Pensemos bem: por que a morte é a morte? Porque é a morte! É preciso levar a morte a sério. Comecei a levar a morte a sério vendo morrer jovens amigos, sem me iludir com as promessas da religião de que ainda estivessem vivos. Alguma vez, pensando na morte de uma pessoa particularmente cara - meu pai, por exemplo - sei que aquela pessoa que amei não existe mais. E que se existir alguma coisa dele em outro lugar – que não sei onde seria - a mim não importa absolutamente nada. A pessoa que amei era aquele particular modo de sorrir, de brincar conosco, de juntar-se a nós no campo no fim de semana quando estávamos em férias, nossa expectativa sobre o portão da casa para esperar por ele e depois saudá-lo festivamente: isso sei por certo que não existe mais. Continuei a refletir sobre os grandes temas da existência e nenhuma das respostas da religião nunca me convenceu. Porém, ao mesmo tempo, eu nem consegui dar alguma resposta. E portanto, de novo, digo que tenho um senso religioso da vida próprio para essa consciência de um mistério que é impenetrável. Impenetrável!



Norberto Bobbio (1909-2004) foi um filósofo político, jurista e senador vitalício italiano. Este artigo foi escrito quando tinha cerca de 91 anos, sendo publicado no La Repubblica de 30 de Abril de 2000.

sábado, 23 de maio de 2009

Deus ainda respira

Deus ainda respira


Autor: Michel Onfray
Fonte: Tratado de ateologia: física da metafísica. (pag. 3-5)
Trad. de Monica Stahel. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2007



Deus está morto? Ainda é preciso ver... Uma tal boa notícia teria produzido efeitos solares dos quais continuamos esperando, e em vão, a menor prova. No lugar e local de um campo fecundo descoberto por tal desaparecimento constata-se antes o niilismo, o culto do nada, a paixão pelo nada, o gosto mórbido pelo noturno dos fins de civilizações, o fascínio pelos abismos e pelos buracos sem fundo em que se perde a alma, o corpo, a identidade, o ser e todo interesse por o que quer que seja. Quadro sinistro, apocalipse deprimente...

A morte de Deus foi um artifício ontológico, número de mágica consubstancial a um século XX que vê a morte por toda a parte: morte da arte, morte da filosofia, morte da metafísica, morte do romance, morte da tonalidade, morte da política. Que se decrete hoje então a morte dessas mortes fictícias! Essas notícias falsas em outros tempos serviam a alguns para cenografar paradoxos antes da virada de casaca metafísica. A morte da filosofia permitia livros de filosofia, a morte do romance gerava romances, a morte da arte obras de arte, etc. A morte de Deus, por sua vez, produziu sagrado, divino, religioso, seja o que melhor for. Hoje nadamos nessa água lustral.

Evidentemente, o anúncio do fim de Deus foi ainda mais tonitruante por ser falso... Trombetas embocadas, anúncios teatrais, rufaram tambores alegrando-se cedo demais. A época desaba sob as informações veneradas como a palavra autorizada de novos oráculos e a abundância se faz em detrimento da qualidade e da veracidade; jamais tantas informações falsas foram celebradas como verdades reveladas. Para que a morte de Deus se verificasse, seria preciso haver certezas, indícios, peças convincentes. Ora, falta tudo isso...

Quem viu o cadáver? Com exceção de Nietzsche, e olhe lá... À maneira do corpo de delito em Ionesco, teríamos sentido sua presença, sua lei, ele teria invadido, emprestado, fedido, teria se desfeito pouco a pouco, dia após dia, e não teríamos deixado de assistir a uma real decomposição – também no sentido filosófico do termo. Em vez disso, o Deus invisível quando vivo continuou invisível mesmo morto. Produto publicitário... Ainda se esperam as provas. Mas quem as poderá dar? Que novo insensato para essa impossível tarefa?

Pois Deus não está morte nem moribundo – ao contrário do que pensam Nietzsche e Heine. Nem morto nem moribundo porque não mortal. Uma ficção não morre, uma ilusão não expira nunca, não se refuta um conto infantil. Nem o hipogrifo nem o centauro estão submetidos à lei dos mamíferos. Um pavão, um cavalo sim; um animal do bestiário mitológico não. Ora, Deus pertence ao bestiário mitológico, como milhares de outras criaturas repertoriadas em dicionários de inúmeras entradas, entre Deméter e Dioniso. O suspiro da criatura oprimida durará tanto quanto a criatura oprimida, equivale a dizer para sempre...

Aliás, onde ele teria morrido? Em A gaia ciência? Assassinado em Sils-Maria por um filósofo inspirado, trágico e sublime, obsedante, selvagem, na segunda metade do século XIX? Com que arma? Um livro, livros, uma obra? Imprecações, análises, demonstrações, refutações? A golpes de aríete ideológico? A arma branca dos escritores... Sozinho, o assassino? Emboscado? Em bando: com abade Meslier e Sade como avós tutelares? Não seria um Deus superior o assassino de Deus se ele existisse? E esse falso crime não estará mascarando um desejo edipiano, um desejo impossível, uma irreprimível aspiração vã a cumprir uma tarefa necessária para gerar liberdade, identidade e sentido?

Não se mata um sopro, um vento, um cheiro, não se mata um sonho, uma aspiração. Deus criado pelos mortais à imagem deles hipostasiada só existe para tornar possível a vida cotidiana apesar da trajetória de todos e cada um em direção ao nada. Enquanto os homens tiverem que morrer, uma parte deles não poderá suportar essa idéia e inventará subterfúgios. Não se assassina, não se mata um subterfúgio. Seria antes ele, até, a nos matar: pois Deus mata a tudo que lhe resiste. Em primeiro lugar a Razão, a Inteligência, o Espírito Crítico. O resto segue-se por reação me cadeia...

O último deus desaparecerá com o último dos homens. E com ele o temor, o medo, a angústia, essas máquinas de criar divindades. O terror diante do nada, a incapacidade de integrar a morte como um processo natural, inevitável, com o qual é preciso compor, diante do qual só a inteligência pode produzi efeitos, mas igualmente a negação, a ausência de sentido além daquele que damos, o absurdo a priori, esses são os feixes genealógicos do divino. Deus morto suporia o nada domesticado. Estamos a anos-luz de um tal progresso ontológico...

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Prêmio Top Blog

Prêmio Top Blog




O Movimento Anti-Religião (MAR) está participando do Prêmio Top Blog! Gostaria de pedir o voto e o apoio de todos ateus que tem visitado o blog! E muito importante que um blog ateu vença esse prêmio!

Conto com o apoio de todos!

Para votar, é só clicar no selo acima, ou clicar AQUI.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Cristo Nunca Existiu

Cristo Nunca Existiu
(Apesar do histerismo generalizado)


Autor: Ezio Flavio Bazzo
Fonte original: Ezio Flavio Bazzo



Aproveitando o filme A PAIXÃO, produzido pelo católico fundamentalista Mel Gibson, que está, por um lado aumentando nos judeus a paranóia anti-semítica e, por outro, deixando os bispos e as freiras em estado de excitação permanente, retomo uma reflexão já antiga sobre o mito da existência de Jesus. Rogo aos leitores que não se deixem abater antes do tempo, pois afinal de contas, se aquilo é apenas um filme, isto é apenas um artigo ilustrativo sobre as evidências de que Cristo, esse gigantesco mito, nunca existiu. Para não acharem que digo coisas de outro mundo ou de inspiração demoníaca, lembrem-se das palavras do velho Papa Pio XII proferidas em 1955, no Congresso de História em Roma: “Para os cristãos, o problema da existência de Jesus Cristo concerne à fé e não à História”.

Não tenho a mínima intenção de alterar uma vírgula nos tratados de vossa fé nem nos abismos de vossa ignorância, apenas pretendo transmitir estas notícias aos poucos estudiosos e pesquisadores que têm soberania de pensamento e que, desde o alto de suas inquietudes, saberão ler-me sem pestanejar, sem surtos histéricos e sem grandes escândalos.

Entendo perfeitamente bem que depois de tantos séculos de mentiras e de desgraças, depois de tantas esperanças frustradas e de terrores introjetados, depois de tantos anos de conspiração contra a saúde mental das pessoas, a realidade caia sobre os beatos mais alienados como uma bomba. Mas é só respirar fundo, tomar uma água com açúcar que tudo volta ao normal. Afinal, todo mundo sabe que não dá para mentir durante tanto tempo e que a omissão da verdade vai se tornando cada vez mais insustentável.


1. O assunto

Foram muitos os pensadores e pesquisadores que dedicaram parte de suas vidas buscando provas materiais e históricas sobre a existência de Cristo. Tal fundamento jamais foi encontrado. O que se tem presenciado desde o princípio do cristianismo até hoje é que a existência de Jesus tem sido obsessivamente defendida por meio de peças e documentos nada científicos (como a Bíblia) e de testemunhos forjados por aqueles que sempre tiveram interesse religioso, econômico e político nessa existência.

Bibliotecas e museus guardam documentos e escritos de autores que foram “contemporâneos de Jesus”, só que neles não há nenhuma referência a esse multifacetado personagem. Os documentos que a igreja detém a respeito, não possuem valor histórico, já que originalmente não mencionavam o nome de Jesus, e que foram rasurados, adulterados e falsificados, visando suprimir a ausência de documentação verdadeira. Essa falta de comprovação torna-se ainda mais significativa quando comparamos Jesus com Sócrates, por exemplo, que apesar de haver vivido vários séculos antes da lenda cristã, deixou comprovada sua existência, sua produção filosófica e cultural, seus pensamentos e inclusive seus discípulos (Aristóteles, Platão, Fédon etc).

Enquanto que Jesus não deixou verdadeiramente nada de palpável, seus discípulos teriam sido analfabetos que nada escreveram e que também não foram mencionados em lugar nenhum pelos historiadores da época.

Segundo um estudo realizado por La Sagesse, Jesus Cristo foi apenas uma entidade ideal criada para fazer cumprir as escrituras, visando dar seqüência ao judaísmo em face da diáspora e da destruição do Templo de Jerusalém. Teria sido um arranjo feito em defesa do judaísmo que então morria, surgindo uma nova crença, na qual ­ paradoxalmente - os judeus nem crêem. Tudo foi planejado para que o homem comum, as massas e os rebanhos continuassem sendo dóceis e fácil de manipular pelas mãos hábeis daqueles que historicamente sempre aproveitaram as religiões como fonte de lucros e de poder.


2. Provas e contraprovas

Flávio Josefo, Justo de Tiberiades, Filon de Alexandria, Tácito, Suetônio e Plínio (o Jovem), segundo a igreja católica, teriam feito referências a Cristo em seus escritos, só que esses documentos quando submetidos pela ciência a exames grafotécnicos, apresentaram provas de que haviam sido adulterados, parcialmente alguns e totalmente outros, pela igreja.

Além disso, o nome Crestus, Cristo e Jesus eram nomes muito comuns tanto na Galiléia como na Judéia e não se sabe a quem eram feitas as referências. Filon de Alexandria, apesar de haver contribuído muito para a construção do cristianismo, nega a existência de Cristo. Escrevendo sobre Pôncio Pilatos e sobre sua atuação como Procurador da Judéia, não faz referência alguma ao suposto julgamento de Jesus. Fala dos essênios e de sua doutrina comunal sem mencionar para nada o nome de Cristo. Quando esteve em Roma para defender os judeus, Filon fez os relatos mais diversos de acontecimentos ocorridos na Palestina, não dando nenhum dado sobre o personagem Jesus. É importante lembrar que Filon foi um dos maiores intelectuais de seu tempo, que estava muito bem informado e que jamais omitiria uma vida tão curiosa e tão trágica como a de Jesus. E o silêncio de Filón não se refere apenas a Jesus, mas também aos apóstolos, a José e a Maria.

Flavio Josefo, que nasceu no ano 37 e que escreveu até o ano 93 sobre o cristianismo, sobre o judaísmo, sobre os messias e os cristos do período, nada disse sobre Jesus Cristo. Justo de Tiberíades que escreveu a história dos judeus, desde Moisés até o ano 50, não menciona a Jesus. Os gregos, os romanos, os hindus dos séculos I e II, jamais ouviram falar da existência física de Jesus Cristo. Os trabalhos filosóficos e teosóficos dos professores da Escola de Tubingem demonstraram que os evangelhos e a Bíblia não possuem nenhum valor histórico e que tudo o que consta neles são arranjos, adaptações e ficções como o próprio Cristo o foi.


3. Crestus e Cristo

Em 1947, em Coumrã, foram encontrados documentos escritos em hebreu que falavam em Crestus e não em Cristo. A igreja, ao tomar conhecimento da descoberta de tais documentos, pretendeu fazer crer que o tal Crestus era o mesmo Cristo de sua criação, só que as investigações posteriores deixaram muito claro que se tratava de uma fraude da igreja e que Crestus não era o Cristo que a igreja pretendia inventar. Tais documentos haviam sido escritos quase um século antes da novela do Calvário e que Crestus era um líder de uma comunidade legendária e comunista.


4. Os filósofos e os historiadores diante do mito

Todos os historiadores que conseguiram “historiar” movidos pelas evidências e não pela fé ou pelo fanatismo negam a existência de Jesus Cristo. Reimarus, filósofo alemão (1768) chegou a conclusões irrefutáveis que abalaram a igreja, tanto ou mais que as conclusões de Darwin e de Copérnico. Kant foi o primeiro filósofo que expulsou Jesus da história da humanidade. Volney, em “Ruínas de Palmira”, nega a existência de Jesus. A. Drews viveu e estudou durante muitos anos a história da Palestina e constatou que o cristianismo foi totalmente estruturado sobre mitos e mentiras. Dupuis, Reinach, Kapthoff, Couchoud etc, todos coincidem em dizer que tudo não passou de uma farsa aplicada sobre os homens de fé e um jogo político usado para fins de domínio.


5. Outras fontes do Cristianismo

O cristianismo não passa de plágios e de uma montagem de filosofias, religiões, valores éticos e morais, mitos e preconceitos pirateados de outras culturas. Como se sabe, antes do mito de Cristo já existiram centenas de outros supostos “redentores”, de outros “messias”, outros “enviados”... e quase todos anunciados e nascidos de virgens, milagreiros e humanitários que prometiam voltar para redimir o populacho de suas culpas (que culpa?) e de seus pecados, blábláblá. Até hoje, entre os mais famosos e com mais status podemos citar Buda, Vishnu, Krishna, Mitra, Horus, Adonis etc. Inclusive os preceitos e a moral usada pelo cristianismo e atribuída a Cristo, foi sugerida e divulgada milhares de anos antes, por filósofos, charlatães e visionários. Exemplos:


(a) “Não faças aos outros o que não queres que a ti seja feito”, pode ser encontrado no budismo, no bramanismo e nos escritos de Confúcio seis mil anos antes.

(b) “Perdoar aos inimigos”, já havia sido aconselhado por Pitágoras muitos anos antes de Cristo.

(c) “Fraternidade e igualdade”, foi insistentemente preconizada por Filón.

(d) ”Tolerância e virtude”, bem como o humanismo, a castidade e o pudor foram sugeridos e recomendados por Platão.

(e) Aristóteles já enchia o saco dos gregos com a idéia de que a “comunidade deve repousar no amor e na justiça”.

(f) Sêneca aconselhava “o domínio das paixões bem como a insensibilidade à dor e aos prazeres”. Ao mesmo tempo em que pedia “indulgência para com os escravos, já que todos os homens eram iguais”. Os homens - segundo Sêneca e segundo Cristo - deviam amar-se uns aos outros etc. Todos esses clichês e chavões que os cristãos acreditam ser de seu mestre foram plagiados pelos inventores e gerentes da nova religião.

Para concluir: os organizadores do cristianismo não fizeram mais que selecionar, acrescentar e diagramar os pilares da nova e mais popular religião do planeta, religião que assaltaria o mundo e o tomaria de surpresa, prometendo-lhe exatamente o que a miséria e a imbecilidade generalizada de então precisava ouvir.

Não fizeram mais do que aproveitar-se da cegueira e da ignorância dos rebanhos, inventando novelas e anedotas sem sentido que eram sempre respaldadas pelo “mistério”, pelas “complexidades divinas”, pelo “sobrenatural” e pelo “incognoscível”, propagandeando um “paraíso” fora da terra (lógico) para os debilóides, e a volta do “Salvador”.

[Com o] tempo, as deficiências culturais e mentais, a lingüística, a informática, a propaganda enganosa, o comércio e muitos outros fatores foram fazendo dessa mentira pueril do messias uma verdade inquestionável, a ponto de alguns fanáticos afirmarem como um dos tantos e cômicos personagens Bíblicos: “CREIO PORQUE É ABSURDO”.

Concluindo, como disse no princípio, não pretendo alterar a fé e nem as crenças de ninguém. Primeiro, porque não sou pastor, nem rabino, nem sacerdote e nem o Anticristo profetizado; segundo, porque a vida me ensinou que com alcoolistas, religiosos e políticos o diálogo é impossível. Prefiro, desde o alto de minha plataforma, ficar assistindo essa vil canalhice religiosa que segue (com a cumplicidade dos governos, dos exércitos, da mídia, das universidades e até das putas) contaminando crianças, mulheres, velhos e todos os tipos de otários. Quando me falta o ar e preciso purificar-me de toda essa baboseira infecta, recito as 14 palavras do velho Proudhon: “Os que me falam de religião querem meu dinheiro (que não é muito) ou minha liberdade (que é inegociável)”. Amém!

A criação do mito de Jesus

A criação do mito de Jesus




Os evangelhos não se pretendiam uma narrativa história mas um “midrash” (uma composição de trechos das Escrituras que, do ponto de vista do autor, estão relacionados e confirmam a mensagem que ele quer transmitir). Ou parábolas com o enxerto de referências históricas. A intenção dos evangelistas não era registrar com precisão os fatos mas transmitir ensinamentos religiosos.

Paulo foi um dos principais criadores da figura de Jesus. Ao cair do cavalo na estrada para Damasco, vítima de insolação ou epilepsia, julgou estar divinamente inspirado. Analisou as Escrituras em busca de revelações ocultas e, acreditando que toda e qualquer idéia que lhe ocorria também era inspiração de Deus, pareceu-lhe ter nelas encontrado o anúncio da vinda de Jesus.

O mundo de Paulo ainda era fortemente influenciado pela civilização grega, sua cultura e seus deuses. Para os gregos e seus vizinhos, a verdadeira realidade era a realidade mítica, onde viviam deuses e anjos. O mundo material era apenas um reflexo dela, as sombras na caverna de Platão. As Escrituras não continham profecias, mas revelavam um pouco desta verdadeira realidade.

O sofrimento e morte de Jesus eram fatos já ocorridos nessa realidade espiritual, num tempo diferente do nosso, assim como as aventuras dos deuses gregos, não algo que ainda ocorreria no mundo material (NOTA 1). Era desta “realidade” que falava Paulo, não de um Jesus de Nazaré, de carne e osso. E seus “fatos” vinham das Escrituras e das revelações de um Jesus espiritual. Na verdade, era Deus que fazia as revelações. Jesus era apenas seu canal de comunicações, o “Logos” grego, a “Sabedoria” judaica. Paulo descobriu “sobre” Jesus nas Escrituras e inspirações divinas, não “da boca de” Jesus. Jesus era o “segredo que esteve escondido durante eras” e que foi revelado por Deus.

Era necessário ter fé nesse Jesus mítico, espiritual, como Paulo por tantas vezes insiste.

Mas por que seria necessário ter fé em que um homem existiu neste mundo, morreu e ressuscitou? Isto seria um fato histórico, não algo só acessível através da fé. Foi só mais tarde que se criou o conceito de um Jesus feito homem. Sua biografia foi tirada das Escrituras. As narrativas do A.T., que foram sua origem e contavam uma história já ocorrida, tornaram-se aos poucos profecias a respeito de sua futura vinda.

Mesmo em livros escritos por volta do ano 120 d.C. ainda se mencionam passagens do A.T. como fonte, não os evangelhos (que já deveriam ter sido escritos e ser muito famosos e conhecidos, se tivesse havido um Jesus e seus discípulos estivessem ativamente difundindo seus ensinamentos).

Mas ninguém fala “conforme eu ouvi da boca de Jesus”, “conforme ensinou Fulano, que foi discípulo de Jesus”. Paulo só vai a Jerusalém anos depois de cair do cavalo e nem menciona os lugares santos ou sua emoção em visitá-los. Vai lá apenas para se encontrar com Pedro. E ninguém menciona Pilatos e o julgamento de Jesus.

Paulo era o mestre, não Jesus. Em todas as suas disputas com os outros discípulos, ele jamais foi acusado de distorcer as palavras de Jesus. Não havia “palavras de Jesus”. Os evangelhos e sua vida terrena ainda não tinham sido inventados.

É possível que versões primitivas dos evangelhos já existissem no final do primeiro século, mas não faziam parte da corrente paulinista, predominante. Só durante o segundo século começaram a ser mencionados e se incorporaram ao conjunto de crendices contraditórias que cercava a figura de Cristo, defendidas por centenas, talvez milhares de seitas que brigavam entre si.


Os evangelhos são uma montagem de elementos de várias fontes:

Muitos dos ensinamentos atribuídos a Jesus foram encontrados nos manuscritos do Mar Morto, escritos pelos essênios pelo menos 100 anos antes de Cristo. Eles eram conhecidos pelo seu desprezo às coisas materiais, faziam-se batizar para a purificação do corpo e do espírito e iniciavam a vida pública aos 30 anos, após 40 dias de jejum no deserto. Esperavam para breve a vinda do reino de Deus.

Frases como “amar seus inimigos”, “se lhe pedem o casaco dá também a camisa” e “dar a outra face” derivam dos estóicos/cínicos, um movimento filosófico de origem grega que pregava o retorno a uma vida mais simples e humilde, em oposição ao materialismo da sociedade urbana.

Muitos outros foram tirados do “Documento Q”, uma coleção de ditos resultantes da mistura da filosofia estóica/cínica, com o messianismo judeu. Quando os evangelistas inventaram uma vida terrena para Jesus, cada um localizou os ditos em contextos diferentes. Exemplos:

– A história do salvador nascido de uma virgem e tentativas de matá-lo quando criança;
– Sua morte e ressurreição (em vários casos, no terceiro dia);
– Céu, inferno e juízo final (que não existiam no judaísmo original);
– Petra, no mitraísmo e no “Livro dos Mortos” egípcio, era o guardião das chaves do céu. O mitraísmo também denominava Petra a um rochedo considerado sagrado;
– Hórus lutou durante 40 dias no deserto contra as tentações de Satã;
– Hórus, a luz do mundo; o caminho, a verdade e a vida;
– Hórus batizado com água por Anup;
– Hórus representado por uma cruz;
– A trindade Atom (o pai), Hórus (o filho) e Ra (o espírito santo);
– Hórus e Mitra tinham 12 discípulos;
– Apolônio, Mitra e Hermes eram conhecidos como “bom pastor” e eram representados com um cordeiro nos braços;
– A última ceia, freqüentemente com uma bebida e um alimento que representavam o corpo e o sangue de algum deus;
– A estrela guia, elemento freqüente em lendas e mitologias antigas;
– Tamuz, deus da Suméria e Fenícia, foi gerado por uma virgem, morreu com uma chaga no flanco e, três dias depois, levantou-se do túmulo e o deixou vazio com a pedra que o fechava a um lado. Belém era o centro do culto a Tamuz.



Falsas profecias:

Uma comparação cuidadosa revela que vários outros trechos foram aproveitados fora de contexto ou tomados como profecia, quando na verdade se referiam a outras coisas. Exemplos:

– Lucas 01:28-33, onde o nascimento de Jesus é anunciado a Maria, uma cópia quase exata de Sofonias 03:14-18, onde se profetiza o triunfo de Israel sobre as nações que a oprimiram;
– Mateus 02:05-06 e João 07:42, onde se diz que o nascimento de Jesus em Belém fora profetizado. Entretanto, o trecho que fala de Belém (Miquéias 05:02), se refere ao clã de David, Belém Éfrata, e não a uma cidade. Além disto, mesmo que fosse uma cidade, o tal Messias profetizado viria para espalhar o terror e a morte entre os inimigos de Israel e torná-la poderosa, enquanto que Jesus afirmou que “meu reino não é deste mundo”;
– Mateus 01:22 cita Isaías 07:14 sobre o nascimento do messias de uma virgem, quando Isaías falava de uma criança de seu tempo, 700 anos antes de Cristo, não de uma virgem mas de uma jovem, não de Jesus mas de Emanuel;
– Mateus 21:01-07 (e os outros evangelistas) dizem que a entrada de Jesus em Jerusalém montado num jumento fora prevista em Zacarias 09:09 mas, mais uma vez, o rei de que fala Zacarias era um rei humano, que reinaria sobre Israel, não Jesus. As aclamações do povo foram tiradas do Salmo 117:26 (“Bendito o que vem em nome do Senhor”);
– Mateus 26:15 e 27:03-10 fala da traição de Judas e das 30 moedas como tendo sido profetizada em Salmos 41:09 e Zacarias 11:12-13. Entretanto, nenhuma das passagens fala do messias. Nos salmos, é David, o autor, que se diz traído e se considera um pecador.

E Zacarias diz ter recebido as 30 moedas por um serviço prestado, sem nenhuma traição envolvida (e ele também devolve as moedas). Mateus diz que a compra do campo do oleiro com as 30 moedas fora profetizada por Jeremias, mas tal profecia não existe.

– João 02:14-16 (e os outros evangelistas) falam sobre como Jesus expulsou os vendilhões do Templo. Considerando-se o tamanho do pátio do Templo e o fato de que o comércio de animais era essencial à realização dos sacrifícios pelos fiéis, não tinha nada de ilegal e tinha o apoio das autoridades religiosas, parece improvável que um único homem com um chicote conseguisse expulsar a todos, ainda por cima impunemente. Esta passagem parece ter sido inspirada em Zacarias 14:21 (“Naquele dia não tornará mais a haver mercador na casa do Senhor dos Exércitos”) e Jeremias 07:11 (“Esta minha casa está convertida em um covil de ladrões”);
– Os Salmos 22:02-19 e 69:22 foram usado na crucificação, embora nele David falasse de seus inimigos e da perseguição que sofria do rei Saul: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? [...] Todos os que me vêem zombam de mim, abrem a boca e balançam a cabeça: "Ele recorreu a Javé ... pois que Javé o salve! Que o liberte, se é que o ama de fato!" [...] Cães numerosos me rodeiam, e um bando de malfeitores me envolve, furando minhas mãos e meus pés. Posso contar todos os meus ossos. As pessoas me observam e me encaram, entre si repartem minhas vestes, e sorteiam a minha túnica". "Como alimento me deram fel, e na minha sede me deram vinagre”


De qualquer modo, não se podem levar a sério profecias que se dizem realizadas no mesmo livro em que foram feitas. É preciso que a comprovação seja externa ao livro. E isto não acontece. Um exemplo perfeito de profecia fracassada está em Ezequiel 26 e 29 (NOTA 2). E pode-se suspeitar de que várias "profecias" foram feitas depois do fato ocorrido.

Profecias e histórias sobre o justo que sofreu, foi injustamente acusado, perseguido e morto (ou foi salvo da morte no último instante), sendo então reabilitado e exaltado, são comuns ao longo da Bíblia. Refletem provavelmente os sonhos de grandeza dos judeus, povo freqüentemente perseguido e escravizado, e suas esperanças de que seu deus os ajude a triunfar sobre povos que os oprimiam.

Além disto, mesmo que Jesus tivesse existido, ele certamente seguiria as Escrituras como um roteiro para provar que era o Messias. Por exemplo, entraria em Jerusalém montado num jumento como fez o rei humilde em Zacarias 09:09. Note-se que os evangelhos dizem claramente “e ele o fez para que se cumprissem as Escrituras”.


Cronologia resumida do surgimento dos evangelhos:

Há uma epístola apócrifa, denominada 1 Clemente, enviada de Roma aos Coríntios no ano de 96 d.C., onde pela primeira vez Jesus é mencionado como mestre e ensinamentos lhe são atribuídos. Várias passagens lembram o Sermão da Montanha mas há outras que também lembram os evangelhos mas não são atribuídas a ninguém ou então citam o Antigo Testamento. Ainda não há menções a uma vida terrena nem sobre milagres ou João Batista. Mesmo quando fala do julgamento e morte de Cristo, Clemente cita Isaías. Seu Jesus parece ser algo que ele construiu a partir das Escrituras.

Por volta do ano 107 d.C., nas 7 cartas escritas por Inácio, surgem as primeiras menções a Herodes, Pôncio Pilatos e Maria. Há até um trecho sobre a aparição de Jesus ressuscitado aos discípulos, mas ainda nada se diz dos evangelhos ou que Jesus tivesse sido um mestre.

Na época de Inácio foi escrita a Didaké (ou Didache), onde nada se fala dos ensinamentos de Jesus e a oração do Pai Nosso é atribuída diretamente a Deus. Nada de última ceia, morte e ressurreição. Deus é o mestre e Jesus aparece apenas como filho de Deus e seu servo, cuja função é servir de canal de comunicação entre Deus e os homens.

O nascimento de um Jesus terreno aparece pela primeira vez no texto “Ascensão de Isaías”, que data de 115 d.C. Mas a história é diferente. Jesus nasce na casa de Maria e José em Belém, não numa mangedoura durante uma viagem, e Maria só mais tarde descobre que seu filho era especial. Nada sobre pastores, magos, Herodes e fuga para o Egito. Os evangelistas se basearam nesta história mas cada um a modificou à sua maneira, mantendo em comum apenas a referência a Belém, provavelmente por causa da profecia de Malaquias sobre o nascimento lá de um futuro rei de Israel. A fuga para o Egito, por exemplo, só existe num dos evangelhos. Em outro, Jesus volta diretamente para casa e é apresentado no templo (NOTA 3).

A primeira referência a Pilatos numa epístola surge em 1 Timóteo 6:13, que deve ter sido escrita por volta de 115 d.C., mas ela é tão omissa quanto ao resto que acredita-se que esta seja uma inclusão posterior. 1 Tessalonicenses afirma que os judeus mataram Jesus mas há um consenso entre os estudiosos da Bíblia sobre esta ser uma inclusão posterior também.

2 Pedro, escrita por volta de 120 d.C., fala na vinda futura de Jesus (não o seu retorno) e seu autor cita profecias do AT, não uma promessa feita por Jesus. No fim do capítulo 1, esta epístola menciona algo que lembra a transfiguração de Jesus dos evangelhos mas o fato é apresentado como uma amostra do que seria a vinda futura de Jesus e de seu poder. E a fonte, mais uma vez, são as Escrituras, não um Jesus terreno.

Barnabás (120 d.C.) é mais uma coleção de tradições orais e lendas, sem menção aos evangelhos ou Jesus de carne e osso, embora algumas passagens lembrem seus ensinamentos e haja vagas referências a acontecimentos históricos. Quando fala da paixão de Cristo, se baseia nas Escrituras.

Uma carta de Policarpo, bispo de Esmirna (130 d.C.) já está bem próxima dos evangelhos em vários trechos mais ainda faz referência aos documentos acima, não aos evangelistas.

Há escritos de Papias da época de Policarpo que se perderam mas são mencionados por Eusébio e estes começam a fazer referência aos evangelhos. Segundo Eusébio, Papias disse que um certo João disse que Marcos tinha sido o intérprete de Pedro e registrou o que Pedro ainda se lembrava dos ensinamentos do Senhor, aos pedaços e sem ordem. Ou seja, ainda não era um evangelho narrativo.

Por volta de 140 d.C, o gnóstico Marcião usou trechos de uma versão prévia do que viria a ser o evangelho de Lucas. Sabemos disto porque Tertuliano condenou sua interpretação do texto anos mais tarde. A versão que Marcião usou era diferente da atual, o que mostra que os evangelhos passaram por várias revisões. E isto ocorreu provavelmente porque na época os evangelhos não passavam de textos soltos de vários autores e ninguém os considerava sagrados nem inalteráveis, apenas considerações pessoais sobre Jesus e seus ensinamentos.

Na verdade, este processo de revisão pode ser visto ao longo dos 30 anos que separam Marcos de João. Cada um é uma adaptação do anterior à realidade de sua época. Um exemplo é o progressivo envolvimento dos judeus na condenação de Jesus e a “desculpabilização” dos romanos.

Os evangelhos, aliás, nem tinham nomes. Justino, o Mártir, por volta de 150 d.C. ainda os chama apenas de “Memórias dos Apóstolos” e o que ele cita são apenas ensinamentos soltos. Tais trechos divergem dos evangelhos atuais e não há nada do evangelho de João.

A primeira menção que já foi encontrada aos 4 evangelistas é a de Ireneu, bispo de Lyons, por volta de 180 d.C., onde ele comenta que deveria haver 4 evangelhos porque havia 4 ventos e 4 cantos da Terra.

Finalmente, acredita-se que os Atos tenham sido escritos pela igreja de Roma em meados do segundo século para criar uma imagem mais favorável de Paulo, que na época era apontado pelos gnósticos como seu líder (por se basear apenas nas revelações recebidas diretamente de Deus e não através da Igreja, ou seja, do Jesus terreno e dos apóstolos). As epístolas, pelo contrário, mostram Paulo rejeitando a versão de Tiago e os outros, embora eles tivessem convivido com Jesus.


Notas:

(1) Os gregos (e também os europeus até os tempos de Copérnico e Galileu) acreditavam que a Terra era o centro do universo. Em volta dela havia esferas de cristal concêntricas, cada uma sustentando um dos 7 planetas conhecidos. Na esfera mais interior, a da Lua, ficavam os demônios, mensageiros entre os homens e os deuses, e além da sétima esfera ficavam os deuses. Para Paulo e seus correligionários, em vez dos deuses havia um único deus e os demônios eram forças do mal (em Efésios 06:12 eles estão nas regiões celestes; só mais tarde foram relegados às profundezas da terra; são eles os dominadores do mundo, não os humanos). Segundo apócrifos do fim do primeiro século, como a “Ascensão de Isaías”, Jesus teria partido numa jornada através das esferas até chegar à mais interior, nascendo de uma mulher (assim como Attis nascera de Cibele e depois se sacrificara). Os demônios, sem perceber quem ele era, o teriam morto. No final do século I, nenhuma menção a um Jesus terreno. Nada de perdão dos pecados, nada de ensinamentos. Pilatos não o julgou, não houve Calvário. A missão desse Jesus, que tinha aparência humana mas não era de carne e osso, era derrotar o anjo da morte e resgatar os justos. I Coríntios 02:08 fala novamente dos dominadores do mundo, não de Pilatos, por exemplo. Orígenes e Marcião também interpretam Paulo desta forma. Jesus desce então aos infernos (o Sheol) e ressuscita três dias depois. Retorna aos céus levando com ele as almas dos justos e, a partir desse dia, os justos que morressem iriam também para o céu. Este era o segredo escondido, no qual era preciso acreditar para se escapar do inferno. Jesus era o cordeiro imolado desde o início dos tempos (e não no ano 33).

(2) Ezequiel 26 diz que Yaveh deu a cidade de Tiro a Nabucodonosor para saquear e destruir. A cidade seria coberta pelo mar e nunca mais voltaria a existir. A história nos diz que Tiro foi sitiada por Nabucodonosor mas que este não conseguiu tomá-la. A cidade foi destruída séculos mais tarde por Alexandre o Grande mas recuperou-se e é hoje uma cidade moderna. E o mar não a cobriu. Ezequiel 29 diz que, como compensação pelo fracasso em Tiro, Yaveh lhe daria Egito e os países vizinhos, também para saquear e destruir. O Egito seria devastado para sempre e seus habitantes se dispersariam pelo mundo. Nada disto aconteceu.

(3) A estrela guia é um elemento comum nas histórias de heróis antigos e também há uma matança de inocentes na lenda de Moisés. Herodes matou vários de seus próprios parentes com medo que lhe tomassem o poder, o que pode ter inspirado os evangelistas, mas não há registro histórico de matança indiscriminada de crianças.


Fontes:

Sobre a definição do cânon da Bíblia: http://www.infidels.org/library/modern/larry_taylor/canon.html

Sobre o uso de passagens do Antigo Testamento: Miracles and the book of Mórmon:
http://www.bowness.demon.co.uk/mirc1.htm

Sobre a influência de religiões antigas:
http://www.strbrasil.com/Atheos/jesus.htm
http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.phtml?cod=2092&cat=Ensaios

Sobre a ausência de menções a um Cristo histórico no primeiro século: The Jesus Puzzle, por Earl Doherty:
http://www.humanists.net/jesuspuzzle/home.htm

domingo, 17 de maio de 2009

Jesus: o incômodo silêncio da História

Jesus: o incômodo silêncio da História



Autor:
Lee Salisbury
Tradução: Fernando Silva
Fonte: Ateus do Brasil
Texto original: History’s Troubling Silence About Jesus




Quem é que nunca ouviu falar de Jesus de Nazaré? É claro que todo mundo ouviu falar de Jesus. A Bíblia nos diz que sua fama se espalhou por toda a Palestina e Síria. Ele é o homem-deus/salvador do mundo que realizou milagres que só um deus poderia realizar. Transformou água em vinho, alimentou milhares de pessoas com apenas alguns pedaços de pão e peixe, andou sobre as águas, acalmou tempestades, curou cegos, surdos e enfermos, recuperou mãos atrofiadas, expulsou demônios e ressuscitou os mortos. Seus ensinamentos morais são considerados superiores a tudo o que já foi ensinado.

Ele foi rejeitado por seu próprio povo, os judeus, e brutalmente crucificado pelos romanos. Mas isto não deteve Jesus. A Bíblia nos diz que, ao ser crucificado, céus e terra confirmaram sua divindade, causando um eclipse do sol de 3 horas em toda a terra, um terremoto que fez com que a cortina do templo em Jerusalém se rasgasse ao meio e que túmulos se abrissem e homens santos ressuscitassem e aparecessem às pessoas em Jerusalém. Três dias depois, o Filho de Deus derrotou o Diabo, o príncipe das trevas, ressuscitou dos mortos, apareceu a seus discípulos e então subiu aos céus. Como é possível alguém não gostar desta história nem desejar acreditar nela?

O problema que pesquisadores sinceros e com mentes objetivas têm com esta história espantosa é: por que os registros históricos de escritores gregos, romanos e judeus não cristãos praticamente não dizem nada sobre Jesus de Nazaré? Certamente que notícias sobre acontecimentos como esses, se fossem verdadeiras, teriam se espalhado por todo o mundo mediterrâneo. E, no entanto, os escritos que sobreviveram, de uns 35 a 40 observadores independentes durante os primeiros 100 anos que se seguiram suposta crucificação e ressurreição de Jesus, praticamente não confirmam nada. Estes autores eram respeitados, viajados, sabiam se expressar, observavam e analisavam os fatos, eram os filósofos, poetas, moralistas e historiadores daquela época. Entre as mais destacadas personalidades que não mencionam Jesus, temos:

Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.) — Um dos mais famosos autores romanos sobre ética, filosofia e moral e um cientista que registrou eclipses e terremotos. As cartas que teria trocado com Paulo se revelaram uma fraude, mais tarde.

Plínio, o velho (23 d.C. – 79 d.C.) — História natural. Escreveu 37 livros sobre eventos como terremotos, eclipses e tratamentos médicos.

Quintiliano (39 d.C. – 96 d.C.) — Escreveu “Instituio Oratio”, 12 livros sobre moral e virtude.

Epitectus (55 d.C. – 135 d.C.) — Ex-escravo que se tornou renomado moralista e filósofo e escreveu sobre a “irmandade dos homens” e a importância de se ajudarem os pobres e oprimidos.

Marcial (38 d.C. – 103 d.C.) — Escreveu poemas épicos sobre as loucuras humanas e as várias personalidades do império romano.

Juvenal (55 d.C. – 127 d.C.) — Um dos maiores poetas satíricos de Roma. Escreveu sobre injustiça e tragédia no governo romano.

Plutarco (46 d.C. – 119 d.C.) — Escritor grego que viajou de Roma a Alexandria. Escreveu “Moralia”, sobre moral e ética.

Três romanos cujos escritos contêm referências mínimas a Cristo, Cresto ou cristãos:

Plínio, o jovem (61 d.C. – 113 d.C.) — Foi proconsul da Bitínia (atual Turquia). Numa carta ao imperador Trajano, em 112 d.C., pergunta o que fazer quanto aos cristãos que “se reúnem regularmente antes da aurora, em dias determinados, para cantar louvores a Cristo como se ele fosse um deus”. Uns oitenta anos depois da morte de Jesus, alguém estava adorando a um Cristo (messias, em hebraico)! Entretanto, nada se diz sobre se este Cristo era Jesus, o mestre milagreiro que foi crucificado e ressuscitou na Judéia ou se um Cristo mitológico das religiões pagãs de mistério. O próprio Jesus teria dito que haveria muitos falsos Cristos, portanto a afirmação de Plínio não contribui em muito para demonstrar que o Jesus de Nazaré existiu.

Suetônio (69 d.C. – 122 d.C.) — Em “A vida dos imperadores”, com a história de 11 imperadores, ele conta, em 120 d.C., sobre o imperador Cláudio (41 d.C. – 54 d.C.), que ele “expulsou de Roma os judeus que, sob a influência de Cresto, viviam causando tumultos”. Quem é Cresto? Não há menção a Jesus. Seria este Cresto um agitador judeu, um dos muitos falsos messias, ou um Cristo mítico? Este trecho não prova nada sobre a historicidade de um Jesus de Nazaré.

Tácito (56 d.C. – 120 d.C.) — Famoso historiador romano. Seu “Annuals”, referente ao período 14-68 d.C., Livro 15, capítulo 44, escrito por volta de 115 d.C., contém a primeira referência a Cristo como um homem executado na Judéia por Pôncio Pilatos. Tácito declara que “Cristo, o fundador, sofreu a pena de morte no reino de Tibério, por ordem do procurador Pôncio Pilatos”. Os estudiosos apontam várias razões para se suspeitar de que este trecho não seja de Tácito nem de registros romanos, e sim uma inserção posterior na obra de Tácito:

  1. A referência a Pilatos como procurador seria apropriada na época de Tácito, mas, na época de Pilatos, o título correto era “prefeito”.
  2. Se Tácito escreveu este trecho no início do segundo século, por que os Pais da Igreja, como Tertuliano, Clemente, Orígenes e até Eusébio, que tanto procuraram por provas da historicidade de Jesus, não o citam?
  3. Tácito só passa a ser citado por escritores cristãos a partir do século 15.

O que é claro e indiscutível é que um período de 80 a 100 anos sem nenhum registro histórico confiável, depois de fatos de tal magnitude, é longo o bastante para levantar suspeitas. Além do mais, é insuficiente citar três relatos tão curtos e tão pouco informativos para provar que existiu um messias judeu milagreiro chamado Jesus que seria Deus em forma humana, foi crucificado e ressuscitou.

Há três autores judeus importantes do primeiro século:

Philo-Judaeus (15 a.C. – 50 d.C.) — de Alexandria, era um teólogo-filósofo judeu que falava grego. Ele conhecia bem Jerusalém porque sua família morava lá. Escreveu muita coisa sobre história e religião judaica do ponto de vista grego e ensinou alguns conceitos que também aparecem no evangelho de João e nas epístolas de Paulo. Por exemplo: Deus e sua Palavra são um só; a Palavra é o filho primogênito de Deus; Deus criou o mundo através de sua palavra; Deus unifica todas as coisas através de sua Palavra; a Palavra é fonte de vida eterna; a Palavra habita em nós e entre nós; todo julgamento cabe Palavra; a Palavra é imutável.

Philo também ensinou sobre Deus ser um espírito, sobre a Trindade, sobre virgens que dão luz, judeus que pecam e irão para o inferno, pagãos que aceitam a Deus e irão para o céu e um Deus que é amor e perdoa. Entretanto, Philo, um judeu que viveu na vizinha Alexandria e que teria sido contemporâneo a Jesus, nunca menciona alguém com este nome nem nenhum milagreiro que teria sido crucificado e depois ressuscitou em Jerusalém, sem falar em eclipses, terremotos e santos judeus saindo dos túmulos e andando pela cidade. Por que? O completo silêncio de Philo é ensurdecedor!

Flavius Josephus (37 d.C. – 103 d.C.) — era um fariseu que nasceu em Jerusalém, vivia em Roma e escreveu “História dos judeus” (79 d.C.) e “Antiguidades dos judeus” (93 d.C.). Apologistas cristãos (defensores da fé) consideram o testemunho de Josephus sobre Jesus a única evidência garantida da historicidade de Jesus. O testemunho citado se encontra em “Antiguidades dos judeus”. Ao contrário dos apologistas, entretanto, muitos estudiosos, inclusive os autores da Encyclopedia Britannica, consideram o trecho “uma inserção posterior feita por copistas cristãos”. Ele diz que:

Naquele tempo, nasceu Jesus, homem sábio, se é que se pode chamar homem, realizando coisas admiráveis e ensinando a todos os que quisessem inspirar-se na verdade. Não foi só seguido por muitos hebreus, como por alguns gregos, Era o Cristo. Sendo acusado por nossos chefes, do nosso país ante Pilatos, este o fez sacrificar. Seus seguidores não o abandonaram nem mesmo após sua morte. Vivo e ressuscitado, reapareceu ao terceiro dia após sua morte, como o haviam predito os santos profetas, quando realiza outras mil coisas milagrosas. A sociedade cristã que ainda hoje subsiste, tomou dele o nome que usa.

Por que este trecho é considerado uma inserção posterior?

  1. Josephus era um fariseu. Só um cristão diria que Jesus era o Cristo. Josephus teria tido que renunciar s suas crenças para dizer isto, e Josephus morreu ainda um fariseu.
  2. Josephus costumava escrever capítulos e mais capítulos sobre gente insignificante e eventos obscuros. Como é possível que ele tenha despachado Jesus, uma pessoa tão importante, com apenas algumas frases?
  3. Os parágrafos antes e depois deste trecho descrevem como os romanos reprimiram violentamente as sucessivas rebeliões judaicas. O parágrafo anterior começa com “por aquela época, mais uma triste calamidade desorientou os judeus”. Será que “triste calamidade” se refere vinda do “realizador de mil coisas milagrosas” ou aos romanos matando judeus? Esta suposta referência a Jesus não tem nada a ver com o parágrafo anterior. Parece mais uma inclusão posterior, fora de contexto.
  4. Finalmente, e o que é ainda mais convincente, se Josephus realmente tivesse feito esta referência a Jesus, os Pais da Igreja pelos 200 anos seguintes certamente o teriam usado para se defender das acusações de que Jesus seria apenas mais um mito. Contudo, Justino, Irineu, Tertuliano, Clemente de Alexandria e Orígenes nunca citam este trecho. Sabemos que Orígenes leu Josephus porque ele deixou textos criticando Josephus por este atribuir a destruição de Jerusalém morte de Tiago. Aliás, Orígenes declara expressamente que Josephus, que falava de João Batista, nunca reconheceu Jesus como o Messias (”Contra Celsum”, I, 47).

Não somente a referência de Josephus a Jesus parece fraudulenta como outras menções a fatos históricos em seus livros contradizem e omitem histórias do Novo Testamento:

  1. A Bíblia diz que João Batista foi morto por volta de 30 d.C., no início da vida pública de Jesus. Josephus, contudo, diz que Herodes matou João durante sua guerra contra o rei Aertus da Arábia, em 34 – 37 d.C.
  2. Josephus não menciona a celebração de Pentecostes em Jerusalém, quando, supostamente: judeus devotos de todas as nações se reuniram e receberam o Espírito Santo, sendo capazes de entender os apóstolos cada qual em sua própria língua; Pedro, um pescador judeu, se torna o líder da nova igreja; um colega fariseu de Josephus, Saulo de Tarso, se torna o apóstolo Paulo; a nova igreja passa por um crescimento explosivo na Palestina, Alexandria, Grécia e Roma, onde morava Josephus. O suposto martírio de Pedro e Paulo em Roma, por volta de 60 d.C., não é mencionado por Josephus. Os apologistas cristãos, que depositam tanta confiança na veracidade do testemunho de Josephus sobre Jesus, parecem não se importar com suas omissões posteriores.

A Encyclopedia Britannica afirma que os cristãos distorceram os fatos ao enxertar o trecho sobre Jesus. Isto é verdade? Eusébio (265-339 d.C.), reconhecido como o “Pai da história da Igreja” e nomeado supervisor da doutrina pelo imperador Constantino, escreve em seu “Preparação do evangelho”, ainda hoje publicado por editoras cristãs como a Baker House, que “às vezes é necessário mentir para beneficiar àqueles que requerem tal tratamento”. Eusébio, um dos cristãos que mais influenciou a história da Igreja, aprovou a fraude como meio de promover o cristianismo! A probabilidade de o cristianismo de Constantino ser uma fraude está diretamente relacionada à desesperada necessidade de encontrar evidências a favor da historicidade de Jesus. Sem o suposto testemunho de Josephus, não resta nehuma evidência confiável de origem não cristã.

Justus de Tiberíades é o terceiro escritor judeu do primeiro século. Seus escritos foram perdidos, mas Photius, patriarca de Constantinopla (878-886 d.C.), escreveu “Bibleotheca”, onde ele comenta a obra de Justus. Photius diz que “do advento de Cristo, das coisas que lhe aconteceram ou dos milagres que ele realizou, não há absolutamente nenhuma menção (em Justus)”. Justus vivia em Tiberíades, na Galiléia (João 6:23). Seus escritos são anteriores às “Antiguidades” de Josephus, de 93 d.C., portanto é provável que ele tenha vivido durante ou imediatamente após a suposta época de Jesus, mas é notável que nada tenha mencionado sobre ele.

A literatura rabínica seria logicamente o outro lugar para se pesquisar a historicidade de Jesus de Nazaré. O Novo Testamento alega que Jesus é o cumprimento da profecia judaica sobre o messias, crucificado no dia da Páscoa. Naquele dia, supostamente houve um terremoto em Jerusalém, a cortina de seu templo se rasgou de alto a baixo, houve um eclipse do sol, santos judeus ressuscitaram e andaram pela cidade. Três dias depois, Jesus ressuscitou e depois subiu aos céus diante de todos. Algum tempo depois, no dia de Pentecostes, os judeus de várias nações se reuniram e viram o Espírito Santo descer na forma de línguas de fogo; a igreja cristã se expandiu de forma explosiva entre judeus e pagãos, com sinais e milagres acontecendo por toda a parte. Em 70 d.C., Jerusalém foi cercada pelos romanos, que destruíram Israel como nação e dispersaram os judeus.

Ainda que os rabinos não aceitassem Jesus como o Messias, o impacto dos acontecimentos à volta de Jesus logicamente teria sido registrado nos comentários ao Talmud (os midrash). A história e a tradição oral dos judeus registradas nos midrash foram atualizadas e receberam sua forma final pelo rabino Jehudah ha-Qadosh por volta de 220 d.C. Em seu livro “O Jesus que os judeus nunca conheceram”, Frank Zindler diz que não há uma única fonte rabínica da época que fale da vida de um falso messias do primeiro século, dos acontecimentos envolvendo a crucificação e ressurreição de Jesus ou de qualquer pessoa que lembre o Jesus do cristianismo.

Não há locais históricos na Terra Santa que confirmem a historicidade de Jesus de Nazaré. Monges, padres e guias turísticos que levam peregrinos cristãos (aceitam-se doações) aos locais dos acontecimentos descritos na Bíblia dificilmente podem ser considerados pessoas isentas. Ainda citando Zindler, “Não há confirmação não tendenciosa desses locais.” Nazaré não é mencionada nem uma vez no Antigo Testamento. O Talmud cita 63 cidades da Galiléia, mas não Nazaré. Josephus menciona 45 cidades ou vilarejos da Galiléia, mas nem uma vez cita Nazaré. Josephus menciona Japha, que é um subúrbio da Nazaré de hoje. Lucas 4:28-30 diz que Nazaré tinha uma sinagoga e que a borda da colina sobre a qual ela tinha sido construída era alta o suficiente para que Jesus morresse se o tivessem realmente jogado lá de cima. Contudo, a Nazeré de nossos dias ocupa o fundo de um vale e a parte de baixo de uma colina. Não há “topo de colina”. Além disso, não há nenhum vestígio de sinagogas do primeiro século. Orígenes (182-254 d.C.), que viveu em Cesaréia, a umas 30 milhas da atual Nazaré, também não fala em Nazaré. A primeira referência à cidade surge em Eusébio, no século 4. O melhor que podemos imaginar é que Nazaré só surgiu depois do século 2. Esta falta de evidência histórica parece ser a explicação para o fato de não haver nenhuma menção a Nazaré em nenhum registro, de nenhuma origem não cristã. Ou seja, Nazaré não existia no primeiro século.

Não há tempo nem espaço para se falar de outras cidades significativas citadas no Novo Testamento, mas as evidências históricas e arqueológicas quanto a Cafarnaum (mencionada 16 vezes no N.T.) e Betânia, ou o Calvário, são, assim como no caso de Nazaré, igualmente fracas e até mesmo desmentem as Escrituras.

Mentes críticas e objetivas se destacam por procurar confirmação imparcial dos supostos fatos. Quando a única evidência disponível de um acontecimento ou de seus resultados é, não apenas questionável e suspeita, mas também aquilo que os divulgadores do acontecimento ou resultado querem que você acredite, convém desconfiar. O fato é que os escritores judeus não-cristãos, gregos e romanos das décadas que se seguiram à suposta crucificação e ressurreição de Jesus nada dizem sobre ninguém chamado Jesus de Nazaré. Uma pessoa justa sempre estará disposta a analisar novas evidências, mas, 2 mil anos depois, o cristianismo continua tendo tantas evidências imparciais sobre Jesus quanto sobre o Mágico de Oz, Zeus ou qualquer um dos muitos deuses-redentores daquela época.


Referências

  • The Jesus the Jews Never Knew” por Frank R. Zindler
  • Encyclopedia Britannica
  • Deconstructing Jesus” por Robert Price, Ph.D.
  • Obras completas de Josephus, tradução de William Whiston, Ph.D.
  • The Jesus Puzzle” por Earl Doherty
  • The Jesus Mysteries” por Timothy Freke e Peter Gandy

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O Fator Deus

O Fator Deus


Autor: José Saramago
Fonte: Folha de São Paulo, 19/09/2001



Algures na Índia. Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá “ver” cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes. Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um negro que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. O negro era um guerrilheiro. Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras. Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova York. Dois aviões comerciais norte-americanos, seqüestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo. Pelo mesmo processo um terceiro avião causa danos enormes no edifício do Pentágono, sede do poder bélico dos States. Os mortos, soterrados nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, contam-se por milhares.

As fotografias da Índia, de Angola e de Israel atiram-nos com o horror à cara, as vítimas são-nos mostradas no próprio instante da tortura, da agônica expectativa, da morte ignóbil. Em Nova York tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mais limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo, esperou que saíssemos da estupefação para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez “aqui estou” quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdômen desfeito, um tórax espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhãode-mortos, daquele Vietnã cozido a napalme, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atômicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazistas a vomitar cinzas, daqueles caminhões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse. De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta aos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas, sem exceção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, devíamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo, como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como os outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar. Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel. Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os talebanes, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactuado entre a religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.

E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gêmeas de Nova York, e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela ação dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da história. Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o “fator deus”, esse, está presente na vida como se efetivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um Deus, mas o “fator Deus” o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, e não a outra...) a bênção divina. E foi no “fator Deus” em que o Deus islâmico se transformou, que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um Deus andou a semear ventos e que outro Deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres Deuses sem culpa, foi o “fator Deus”, esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta.

Ao leitor crente (de qualquer crença...) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiraram, não peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento de não poder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do “fator Deus”. Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

O que Substituiria a Bíblia como um Guia Moral?

O que Substituiria a Bíblia como um Guia Moral?


Autor: Robert G. Ingersoll
Tradução: Diego Barreto Haddad
Fonte: The Secular Web



Perguntam-me o que “substitui a Bíblia como guia moral”.

Sei que muitas pessoas têm a Bíblia como o único guia moral e acreditam que somente nesse livro se encontra o verdadeiro e perfeito padrão de moralidade.

Existem muitos preceitos bons, muitos provérbios sábios e muitas regras e leis excelentes na Bíblia – mas estão misturados com preceitos péssimos, provérbios tolos, regras absurdas e leis cruéis.

Porém, temos de nos lembrar que a Bíblia é uma coleção de muitos livros escritos durante
séculos, e que representa e conta, em parte, o desenvolvimento e a história de um povo. Precisamos nos lembrar também que seus escritores tratam de uma ampla variedade de assuntos. Muitos desses escritores não têm nada a declarar sobre o certo e o errado, sobre o vício e a virtude.

O livro do Gênesis não contém nada sobre moralidade. Não há nele nenhuma linha calculada para iluminar o campo de nossa conduta. Ninguém pode chamar este livro de um guia moral. Ele constitui-se de mitos e milagres, de tradição e lenda.

No livro do Êxodo encontramos uma explicação de como Jeová libertou os judeus da escravidão dos egípcios.

Nós atualmente sabemos que os judeus jamais foram escravizados pelos egípcios, que a história toda é uma ficção. Nós sabemos disso porque não há no hebraico qualquer palavra de origem egípcia, e não foi encontrada na língua egípcia qualquer vocábulo de origem hebraica. Assim sendo, inferimos que os hebreus e os egípcios não poderiam ter convivido durante séculos.

Certamente o livro do Êxodo não foi escrito para ensinar moralidade. Neste livro é impossível encontrar qualquer palavra contra a escravidão humana. De fato, Jeová era conivente a esta instituição.

A matança do gado com peste e granizo, o assassinato dos primogênitos – de modo que em todos os lares houve morte porque o rei recusou-se a deixar os hebreus partirem – certamente não foi algo moralmente correto: foi algo demoníaco. O autor deste livro considerava todo o povo do Egito – suas crianças, suas manadas e seus rebanhos – como propriedades do Faraó. Esse povo e esse gado foram mortos, não porque fizeram algo de errado, mas simplesmente com o objetivo de punir o rei. É possível extrairmos alguma lição moral desta história?

Todas as leis encontradas no Êxodo – incluindo os Dez Mandamentos –, que estão tão longe do que é realmente bom e sensato, estavam naquele tempo sendo impostas à força a todos os povos do mundo.

O assassinato é, e sempre foi, um crime, e sempre o será enquanto a maioria da população negar-se a ser assassinada.

A diligência sempre foi e sempre será a inimiga do latrocínio.

A natureza do homem é tal que ele admira aquele que diz a verdade e despreza o mentiroso. Entre todas as tribos, entre todos os povos, o “dizer a verdade” tem sido considerado uma virtude, e um juramento ou pronunciamento falsos, um vício.

O amor dos pais pelos filhos é natural, e este amor pode ser encontrado entre todos os animais vivem. Deste modo, o amor dos pais pelos filhos é natural – não foi e não pode ser criado por lei. O amor não surge do senso de dever e tampouco floresce curvado em obediência a comandos.

Assim, neste sentido, os homens e as mulheres não são virtuosos por causa de algum livro ou de alguma crença.

De todos os Dez Mandamentos, os que eram bons eram antigos, eram resultado da experiência. Os mandamentos originais de Jeová eram tolos.

A adoração “qualquer outro Deus” não poderia ter sido pior do que a adoração de Jeová, e nada poderia ser mais absurdo do que a santidade do Sabá.

Se os mandamentos concedidos fossem contra a escravidão e a poligamia, contra guerras de invasão e extermínio, contra a perseguição religiosa sob todas as formas, de modo que o mundo pudesse ser livre, de modo que a mente pudesse ser desenvolvida e o coração civilizado, então poderíamos, com propriedade, chamar tais mandamentos de um “guia moral”.

Antes de podermos dizer que os Dez Mandamentos constituem realmente um guia moral, devemos adicionar e subtrair alguns deles – devemos jogar alguns fora e escrever outros em seus lugares.

Os mandamentos que possuem alguma aplicação conhecida aqui, neste mundo, que tratam de compromissos humanos, são sábios; os outros não se fundamentam em fatos ou experiências.

Muitos dos regulamentos encontrados no Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio são bons. Entretanto, muitos são absurdos e cruéis.

As cerimônias de adoração são completamente insanas.

A maior parte das punições prescritas para violações de leis são irracionais e brutais. O fato é que o Pentateuco justifica praticamente todos os crimes, e chamá-lo de um guia moral é tão absurdo quanto dizer que ele é misericordioso ou verdadeiro.

Nenhuma moral natural pode ser encontrada em Josué ou em Juízes. Estes livros estão repletos de crimes – com massacres e assassinatos. Em boa parte, são como a história real dos índios Apache.

A estória de Rute não é particularmente moral.

Em Samuel I e II não há uma palavra calculada para desenvolver o cérebro ou a consciência.

Jeová matou setenta mil de judeus porque Davi fez um censo do povo. David, segundo o relato, era o único culpado, porém somente inocentes foram mortos.

Em Reis I e II não pode ser encontrada qualquer coisa de valor ético. Todos os reis que se
recusaram a obedecer aos sacerdotes foram denunciados, e todos os vilões coroados que ajudaram os sacerdotes foram declarados como os favoritos de Jeová. Nestes livros não se pode encontrar uma única palavra em favor da liberdade.

Há alguns Salmos bons e alguns infames. A maioria dos Salmos é egoísta. Muitos deles são apelos passionais à vingança.

A história de Jó choca o coração de qualquer homem de boa índole. Neste livro há alguma poesia, algum sentimento e alguma filosofia, mas a história deste drama chamado Jó é desalmada ao mais alto grau. As crianças de Jó foram assassinadas devido a uma pequena aposta entre Deus e o Diabo. Posteriormente, tendo Jó permanecido firme, outras crianças foram colocadas no lugar das assassinadas. Todavia, nada foi feito pelas crianças que foram assassinadas.

O livro de Éster é completamente absurdo, e a única coisa boa nele é o fato de que o nome de Jeová não é mencionado.

Aprecio o Cântico dos Cânticos porque fala sobre o amor humano, e isso é algo que posso compreender. A meu ver, este livro é melhor que todos aqueles que o precedem e, de longe, é um guia moral superior.

Há alguns provérbios sábios e compassivos. Alguns são egoístas e outros são superficiais e triviais.

Gosto do livro de Eclesiastes porque lá podemos encontrar alguma sensatez, alguma poesia e
alguma filosofia. Excetuando-se as interpolações, trata-se de um bom livro.

Obviamente, não há nada em Neemias ou Esdras para tornar o homem melhor; não há nada em Jeremias ou em Lamentações cujo objetivo é atenuar vícios, e somente poucas passagens de Isaías podem ser utilizadas em prol boas causas.

Em Ezequiel e Daniel encontramos somente delírios de insanos.

Em alguns dos profetas menores, aqui e acolá encontramos um bom verso, aqui e acolá um pensamento elevado.

Podemos, através de uma seleção de trechos de diferentes livros, obter uma crença excelente. Entretanto, através de uma seleção de trechos de outros livros, podemos obter uma péssima crença.

O problema é que o espírito do Velho Testamento – sua disposição, seu temperamento – é maldoso, egoísta e cruel. As coisas mais atrozes comandadas, recomendadas e aplaudidas.

As estórias contadas de José, de Eliseu, de Daniel e de Gideão – e de muitos outros – são
hediondas, diabólicas.

Na sua íntegra, o Antigo Testamento não pode ser considerado um guia moral.

Jeová não foi um Deus moral. Ele possuía todos os vícios e carecia de todas as virtudes. Ele geralmente executava suas ameaças, mas nunca cumpriu fielmente uma promessa. Ao mesmo tempo, devemos ter em mente que o Antigo Testamento é uma produção natural, que foi escrito por selvagens que estavam caminhando, lentamente, em direção à civilização. Devemos dar-lhes crédito pelas coisas nobres que disseram e devemos ser compreensivos o suficiente para desculpa-los por suas faltas, e mesmo pelos seus crimes.

Sei que muitos cristãos consideram o Velho Testamento como o “alicerce” e o Novo como a “superestrutura”. Por outro lado, muitos admitem que há falhas e erros no Antigo Testamento, mas insistem que o Novo Testamento é uma flor, um fruto perfeito.

Admito que há muitas coisas boas no Novo Testamento e, se retirarmos deste livro os dogmas da dor eterna, da vingança infinita, da expiação, do sacrifício humano, da necessidade de derramamento de sangue; se colocarmos de lado a doutrina da não-resistência – de amarmos os inimigos –, se colocarmos de lado a idéia de que a prosperidade é conseqüência da perversão, que a miséria é uma preparação para o Paraíso. Enfim, se deixarmos isso tudo para trás e selecionarmos apenas as passagens sensatas e bondosas, que são aplicáveis à nossa conduta, então poderíamos construir um guia moral razoavelmente bom – estreito e limitado, mas moral.

Neste caso, evidentemente, muitas coisas importantes ficariam de fora. Não haveria qualquer coisa quanto aos direitos humanos, nada em favor da família, nenhuma palavra sobre a educação, nada em favor do espírito investigativo, do pensamento e da razão – mas, ainda assim, teríamos um guia moral razoável.

Por outro lado, se selecionarmos apenas as passagens tolas – as mais extremas –, então poder-se-ia construir uma doutrina capaz satisfazer um manicômio inteiro.

Se pegarmos as passagens cruéis, os versos que inculcam o ódio eterno, os versos que rastejam e sibilam como serpentes, então poder-se-ia construir um doutrina que chocaria até o coração de uma hiena.

Talvez nenhum livro contenha passagens melhores que as do Novo Testamento – mas certamente nenhum livro contém piores.

Sob o desabrochar da flor do amor encontra-se o aguilhão do ódio; nos lábios que beijam encontra-se o veneno da serpente.

A Bíblia não é um guia moral.

Qualquer homem que seguir fielmente todos os seus ensinamentos é um inimigo da sociedade – e provavelmente irá terminar seus dias numa prisão ou num manicômio.

Que é moralidade?

Neste mundo, precisamos de certas coisas. Possuímos muitos desejos. Somos expostos a muitos perigos. Precisamos de alimento, combustível, vestimentas e abrigo; além desses desejos, há o que poderíamos denominar nossa “fome mental”.

Somos seres condicionados e, por isso, nossa felicidade depende de condições. Há coisas que reduzem e há coisas que aumentam nosso bem-estar. Há certas coisas que o destroem e outras que o preservam.

A felicidade – também em suas formas mais elevadas – é, em última instância, a única coisa boa. Portanto, todas as coisas cujo objetivo é produzir ou assegurar a felicidade são boas, ou seja, morais. Tudo que destrói ou diminui o bem-estar é ruim, ou seja, imoral. Em suma, tudo que é bom é moral, tudo que é ruim é imoral.

Então o que é – ou poderia ser denominado – um guia moral? A resposta mais curta possível consiste de apenas uma palavra: inteligência.

Queremos a experiência da humanidade, a verdadeira história de nossa raça. Queremos a história do desenvolvimento intelectual, do fortalecimento da ética, da idéia de justiça, da consciência, da caridade, do altruísmo. Almejamos conhecer as estradas e os caminhos que foram percorridos pela mente humana.

Esses fatos em geral, o esboço dessas histórias, os resultados obtidos, as conclusões alcançadas, os princípios envolvidos – tudo isso, tomado em conjunto, consistiria no melhor guia moral concebível.

Não podemos nos apoiar nos assim chamados “livros inspirados” ou nas religiões do mundo. Estas religiões são fundamentadas no sobrenatural e, de acordo com elas, estamos obrigados a adorar e a obedecer algum ser ou seres sobrenaturais. Todas essas religiões são incompatíveis com a liberdade intelectual. São inimigas do pensamento, da investigação, da honestidade intelectual. Elas despojam do homem sua própria humanidade. Prometem recompensas eternas para a crença, para credulidade – para aquilo que denominam “fé”.

Essas religiões ensinam virtudes que escravizam. Transformam coisas inanimadas em coisas sagradas e falsidades em dogmas sacrossantos. Criam crimes artificiais: comer carne na sexta-feira, divertir-se aos sábados, comer nos dias de jejum, ser feliz na Quaresma, debater com um sacerdote, buscar evidências, rejeitar uma crença, expressar seu pensamento honestamente – todos esses atos são pecados, são crimes contra algum deus. Emitir sua opinião sincera sobre Jeová, Maomé ou Cristo é muito pior do que caluniar maliciosamente seu próximo. Questionar ou duvidar de milagres é muito pior do que
rejeitar fatos conhecidos.

Somente os obedientes, os crédulos, os bajuladores, os ajoelhadores, os submissos, os que não questionam – os verdadeiros crentes –, são considerados morais, virtuosos. Não basta ser honesto, generoso e prestativo; não basta seguir as evidências, os fatos. Além disso, é necessário crer. Essas doutrinas são inimigas da moralidade, elas subvertem todas as concepções naturais de virtude.

Todos os “livros inspirados”, ensinando que os mandamentos sobrenaturais são corretos – corretos porque foram ordenados –, ensinando que aquilo que o sobrenatural proíbe é errado – errado porque foi proibido –, são absurdamente antifilosóficos.

E todos os “livros inspirados”, ensinando que somente aqueles que obedecem aos mandamentos sobrenaturais são – ou podem ser – verdadeiramente virtuosos, e que uma fé inquestionada será recompensada com a eterna bem-aventurança, são grosseiramente imorais.

Declaro novamente: a inteligência é o único guia moral.